segunda-feira, junho 18, 2007

Vida

Não escondo a ninguém que encaro como errado o projecto de vida actual e tudo o que vem a seu reboque…

O trabalho das 9h às 19h, a palmadinha nas costas do credito bancário a 50 anos, a reforma aos setenta, o condomínio fechado com 2 metros quadrados de relva para passear o cão, o só se ser considerado enquanto se acrescenta alguma valia, o bronze trazido da costa da Caparica brasileira em pleno Inverno para exibir à 6ªf à noite, o cartão da Unicef comprado no Natal para tranquilizar a alma…

Estranho mundo este que se esquece das pessoas com facilidade e se perde em devaneios supérfluos…

Um mundo que não está feito para os velhotes…Obvio que não.
Dão muito trabalho (demasiado mesmo…), como as crianças. Mas essas ao menos vão crescer, vão nos encher de orgulho com as suas brincadeiras, conquistas e provas de amor….Vão ser independentes. Vão cuidar de nós, esperamos…

O pretexto (re)apareceu…
É quase inconsciente. Na verdade nem são precisos pretextos para falar das coisas que me tocam de forma única…

Acontece-me com muita frequência lembrar-me dele quando determinados estímulos me assaltam.
Desta vez foi este texto e esta foto (sublimes) que me fizeram instantaneamente correr para a imagem do meu Avô João.

É raro o dia em que não pense nele
Talvez por ser a pessoa mais bondosa e generosa que já conheci…

…Arrisco-me a dizer, sem qualquer pitada de sentimentalismo Fátima Lopes, que é a pessoa pela qual nutro mais carinho no mundo.
Talvez por ter sido sempre para mim um exemplo de humanismo, seriedade, carinho e bondade….Bondade em doses XL…

Na última temporada cá em casa, disse-me que estava cansado de viver…
Imagino que a caminho dos 94 anos haja pouco para aprender ou conquistar…
O dia a dia torna-se muitas vezes penoso…
As conquistas de quem passa o dia todo ora sentado ora deitado, para enganar a dor nas costas, resumem-se ao nº de telefonemas que recebe, às pessoas que perguntam por ele, aos títulos grandes dos jornais que não desiste de ler… Enfim, aos sinais que o Mundo lhe dá que não (ainda não…) se esqueceu dele…

Mas a caminho duma idade secular, escravo de ajuda de outra pessoa para fazer praticamente tudo, é complicado não se sentir invadido por um esmagador sentimento de inutilidade….

A qualidade de vida vai o abandonando, a cada ano, mês, semana que passa, como um veneno castrante.

O primeiro sinal de afastamento que senti de forma flagrante foi dado pela memória…
As memórias de há 40, 60, 80 anos atrás continuam presentes e as historias e aventuras duma vida são relatadas ao milímetro (com as mesmas pausas, suspiros, tiradas cómicas…) vezes sem conta.

Mas a memoria curta e imediata perdeu-se…Já não volta… Assim como a paciência dos mais “novos” em ouvir a mesma historia pela terceira vez no mesmo dia.


Também eu já as sei de cor, de trás para a frente, mas oiço-as com o entusiasmo da primeira vez só para não o desiludir nem trair o brilho que sente em ser o topo da pirâmide familiar…

No último ano, preparando-me para enganar o tempo, comecei a gravá-las a todas…

Chegar a esta idade com lucidez é a maior das conquistas. E ter um avô que tenta acompanhar o pelotão do Manoel de Oliveira é um orgulho especial…

Mas não consigo deixar de pensar que é duma injustiça gritante a corrida ter um fim…
É injusto um fim em queda para quem, como o Avô João, passou a vida toda a distribuir sorrisos e bons pensamentos...

Há uns tempos, li algures um texto que dizia que o processo natural de crescimento deveria ser inverso.
Ou seja, devíamos nascer velhos com barbas de sabedoria e mãos gretadas duma vida de trabalho, ir renascendo fisicamente, ganhando qualidade de vida, trabalhando cada vez menos, ganhando inocência e terminar a travessia com um regresso à barriga quentinho da mãe no expoente máximo de carinho e amor…

Seria, sem dúvida, um final mais colorido…Talvez o mundo fosse mais justo!

3 comentários:

poca disse...

bonita a tua homenagem.. mesmo.

acho que ele sabe, sabes.
acho que ele sabe o carinho que lhe tens.. isso sente-se!

quanto ao estar contra o projecto de vida actual.. havia tanta coisa para falar acerca disso.. eu queria um novo mundo.. como o do filme.. aquele antes do "progesso".

beijinho grande

Anónimo disse...

À medida que ia lendo este texto dei comigo a chorar, porque morro de medo da solidão e de ter de depender de pequenos gestos para me sentir vivo. Perdi todos os meus avós bem cedo, e sinto imensa falta deles, mas recordo-me como se fosse hoje de várias histórias que me contaram e guardo-as no meu coração com muito carinho. Numa época em que tudo é vivido à pressa e numa constante necessidade de se estar onde não se está, não percas a virtude de saber ouvir, pois ela está em extinção nos dias que correm!!
Graças a deus o teu avô ainda está entre nós, e enquanto cá estiver estima-o o quanto puderes. Um simples manifesto de carinho, ou um mero sorriso chegam para lhe encher as longas 24 horas do dia.
Enorme homenagem!!!
Grande abraço vidaleco
Bigu

Lápis-de-cor disse...

Breathe, breathe in the air
Don't be afraid to care
Leave but don't leave me
Look around and chose your own ground
For long you live and high you fly
And smiles you'll give and tears you'll cry
And all you touch and all you see
Is all your life will ever be...
Run, run rabbit run
Dig that hole, forget the sun,
And when at last the work is done
Don't sit down it's time to dig another one
For long you live and high you fly
But only if you ride the tide
And balanced on the biggest wave
You race toward an early grave
Pink Floyd
Força...**